domingo, 12 de novembro de 2017

Ética





  
Por uma ética na produção da arquitetura brasileira



Biblioteca Nacional por Jorge Costa

  
            Pensar a ética no âmbito da arquitetura e do urbanismo requer a consideração dessa atividade profissional dentro do universo da cultura ética brasileira. O arquiteto e o urbanista conquistam um desempenho profissional qualificado quando imbuídos de um espírito de cidadania pleno e revelador de uma cultura. O exercício da arte e da técnica de forma integrada e engajada demanda do profissional uma postura permeada por princípios sociais e políticos que possa contribuir para a formulação de uma política setorial de ponta.
          O projeto “Por uma ética na produção da arquitetura brasileira” tem como objetivo reconhecer e promover a importância da ética no exercício da arquitetura e do urbanismo combinado a uma ação contínua de construção de cidadania brasileira.        
           O instrumento que orienta a atividade profissional qualificada do arquiteto e do urbanista é o Código de Ética e Disciplina, ancorado nos princípios da Deontologia, uma teoria normativa concernente aos deveres e à moral que integra a Filosofia Moral contemporânea. O código apresenta duas funções deontológicas: a primeira delas é a função educacional, preventiva e informativa, que promove a boa conduta em relação à prática da Arquitetura e do Urbanismo; e a segunda, a coercitiva, enquadra de forma disciplinar os procedimentos inadequados que ferem os princípios éticos da profissão.
           Para este projeto teremos arquitetos e urbanistas, universidades e a sociedade em geral para uma discussão sobre o estado atual da ética na produção da arquitetura e do urbanismo, tendo como foco principal a interface com a formação profissional, em uma abordagem atenta às obrigações para com o interesse público, o cliente, a profissão, os arquitetos e urbanistas e o Conselho de Arquitetura e Urbanismo. A busca de excelência e compromisso profissionais segue uma trajetória na qual a universidade e os órgãos de classe têm papel fundamental no processo de formação e disseminação de conteúdo ético.
             O objetivo é manter um espaço de diálogo permanente e democrático que nos permita um redimensionamento do campo profissional tendo em vista tanto as reais necessidades técnicas e sociais da cultura arquitetônica e urbanística brasileira, como a possibilidade de a Ética vir a constituir, de forma estratégica, um acervo profissional que demarca o processo de construção de capital simbólico.
           














sábado, 21 de outubro de 2017

Arquitetura




  
Arquitetura - um museu de grandes novidades

 
CCBB BH por Jorge Costa

           A experiência do movimento do corpo do homem no espaço do cotidiano da cidade alimenta a memória e direciona o olhar para determinados objetos que vão promovendo a produção do imaginário social. A criação da paisagem urbana é um projeto político e econômico de grande impacto que irá formar mentalidades e promover emoções reveladoras da realidade.
            O objeto arquitetônico é um dos protagonistas do cenário social, pois ele proporciona o reconhecimento da cultura de uma época e a experimentação contínua de novas percepções e pensamentos. Ele é uma expressão cultural instituída quanto um elemento em permanente reelaboração. 
         A Arquitetura é um laboratório de produção de sentidos e que pode promover o refinamento do olhar e da ação do homem em sua trajetória individual e coletiva. É, em sua acepção plena, uma linguagem onde a arte e a técnica dialogam em busca de uma ética dos sentidos. A ética como uma conquista de um estado de ampliação da experiência e da mentalidade humanas. Um processo de engajamento estético que demarca a produção cultural de um momento histórico na efetivação de um imaginário poético. Na procura das visadas longas de Lúcio Costa.
       O espaço arquitetônico se apresenta como expressão cultural integrante de um movimento dinâmico da vida urbana. O binômio arquitetura e cidade deve afirmar escolhas justificadas pelo sentido do lugar e alcance social. O caráter espetacular da arquitetura pode ferir os princípios humanistas de uma experiência voltada para a essência ontológica. Valeria mais o objeto arquitetônico em si e seu autor do que o sentido para o lugar e o desfrute estético. Temos, assim, a soberania do visual em detrimento do humano. O urbano engolido por uma arquitetura fantasmagórica.
        O Museu de Arte Contemporânea (MAC), projeto de Oscar Niemeyer, em Niterói, sobressai na paisagem por sua presença espetacular, mas com um sentido de adequação ao lugar, símbolo ocular de uma sociedade ainda na luta pelas suas aspirações sociais e éticas, ideário de Niemeyer. Uma arquitetura que aparece na linha litorânea como um gesto para a composição do acervo da geografia humanista.
            A escala e a natureza da arquitetura são variadas. Arquitetura é a vila, o prédio de luxo, o hospital, a casa da favela, o abrigo de idosos, o shopping, a ocupação, a cidade ... Ela é permanente ou efêmera. Ela é projetada por arquiteto ou não como, por exemplo, a Casa da Flor (uma casa-museu) criada por Gabriel Joaquim dos Santos, em São Pedro da Aldeia, e construída a partir de sonhos e de vestígios do homem (objetos encontrados no lixo). 
           Arquitetura é produção (retrato) de uma cultura a qual tem em seu DNA a urgência da aspiração ética. Ela é a possibilidade de ativação de um cosmo no qual o usuário traz para a matéria o infinito da criação (do pensamento). Ela é abrigo, espaço e quem a ocupa detém cultura, singularidades e sonhos. O tempo da arquitetura não para.
         Josep Maria Montaner fala que a atemporalidade da arquitetura é observada pela materialidade, espaço, simbolismo, relação com o contexto e atmosfera que permitem o reconhecimento de seu valor estético, histórico e cultural. O sentido de permanência do valor intrínseco da obra de arquitetura a torna um objeto clássico, um símbolo que demarca os caminhos de construção da identidade social.
          O Museu de Arte Moderna (MAM), projeto de Affonso Eduardo Reidy, no Parque do Flamengo, é um exemplo de um objeto (material) arquitetônico em que o espaço é o protagonista de um lugar onde o cruzamento do interior com o exterior simboliza a integração da cultura com a natureza. Uma paisagem de concreto natural. Um símbolo de uma arquitetura-paisagem.
            A arquitetura se apresenta como um acervo de coleções do passado que precisa ser revisto por um presente marcado por um ativismo que venha das áreas de articulações da cidade. Uma cidade-museu que articula suas arquiteturas e é depositária de coleções vivas a serem objeto de releituras. É quando nós vemos o futuro querer repetir o passado. É quando nós atualizamos a identidade social e vislumbramos um futuro mais diverso, acessível e mais próximo de nossas iniciativas.
                       

                                                       
             

sábado, 25 de junho de 2016

As estações do Vermelho




 
Mark Rothko


Pintar é pensar, meditar sobre formas pictóricas que serão entregues ao olhar de quem aprecia o infinito de retângulos mergulhados em campos de cor. As delimitações da forma e da cor são impregnadas de conhecimento e especulações de um ponto de vista estritamente particular, o vermelho de cada observador. Afinal, “o que é Vermelho?”

Ao som de uma música clássica, as cortinas se abrem e temos Rothko diante da plateia personificado pelo ator Antonio Fagundes. Em uma caracterização marcada pelo desgaste do tempo, expressa em um corpo curvado com um ventre alto e sustentado por calças altivas que o colocam no lugar de um homem maduro, difícil e pensativo. Uma imagem potente que sugere ao espectador o tom do universo dramático de Vermelho, uma peça sobre os dilemas do olhar em uma sociedade marcada pela estética do espetáculo. O artista obcecado por um de seus murais provoca o seu novo assistente: “O que você vê?”

O processo criativo, a formação e as angústias de um artista da arte moderna – o russo Mark Rothko (1903-1970) - são o cerne da cena teatral apresentada pelo diretor Jorge Takla, a partir do texto “Vermelho” (Red) de John Logan, laureado com cinco prêmios Tony, sendo um deles o de melhor espetáculo.

O dramaturgo e roteirista norte-americano John Logan tem participado também de inúmeros projetos cinematográficos de sucesso: “Gladiador de Ridley Scott, “O aviador e “A invenção de Hugo Cabret de Martin Scorsese, “Sweeney Todd: o barbeiro demoníaco da rua Fleet de Tim Burton e “007 – Operação Skfall de Sam Mendes. Com a peça de teatro sobre Rothko, Logan diz: “Com Red eu estava interessado na passagem de uma geração e no relacionamento entre pais e filhos.” 

Rothko integra um grupo de artistas que constituiu o Expressionismo Abstrato (Escola de Nova Iorque), arte de ruptura dos padrões vigentes que se caracterizava pelo processo, pelos sentimentos produzidos no próprio ato da pintura. O artista instituiu a pintura de “campo de cor” onde a configuração da obra apresentava a força emocional da cor pura. 

A montagem em seu processo de criação de um texto teatral construído de forma clássica, que prima pelo próprio texto (discurso), pela palavra tornada potência dramatúrgica, convida o espectador ao exercício do olhar, a refletir sobre os dilemas da subjetividade do observador em um contexto histórico e estético no qual a arte está sob a égide da sociedade de consumo. Muitas das vezes, o objeto artístico é apenas um elemento de um espetáculo vazio, desprovido de significado social. Ficamos na espera de uma arte que possa ocupar o lugar de agente de conhecimento e superação do passado. As angústias de um artista de ego colossal diante de seu tempo se deparam com o dilema de que “um dia o preto vai engolir o vermelho”.

O rigor e a plasticidade do espetáculo de Takla se associam à intensidade das palavras do texto teatral de Logan, das formas e cores pictóricas de Rothko e de suas ideias e afetos que o tornam um artista constrangido com a lógica de uma sociedade de espetáculo voraz. A performance pictórica dos personagens Rothko e Ken (Bruno  Fagundes) constroem um quadro dramático onde cada movimento cênico constitui uma dinâmica na qual “cada pincelada (movimento) é parte de uma tragédia”. Uma tragédia onde contemplação, razão e emoção irão deflagrar uma tensão criadora. As entradas e as saídas de cena no atelier de Rothko, um velho galpão na 222 Bowery, Nova Iorque, são momentos de intensa carga dramática apresentando-se como uma partitura de tensões de ideias e de formas pictóricas. Os objetos cênicos (projeto de design de cenário concebido por Takla) se movimentam como se fossem pinceladas de um quadro a procura de uma forma que possa provocar o espectador. O projeto de design de luz criado por Ney Bonfante pontua a palheta de cores das telas e do cenário através de contrastes que criam um atrito no olhar. 

 



A peça retrata o período de 1958-59 (anos da fase denominada “anos do classicismo” na trajetória do artista) no qual Rothko trabalha na produção dos murais do restaurante Four Seasons, em Nova Iorque, no lendário Edifício Seagram (1958), um marco da arquitetura moderna projetado por Mies van der Rohe e Philip Johnson. A encomenda milionária torna-se o centro nevrálgico das inquietações do artista que oscila entre a cooptação a um projeto de mercado, onde os seus murais seriam objetos apenas de decoração e de luxúria, e a manutenção de uma presença romântica fidedigna ao seu ideário estético e político. Rothko fazia questão de ter controle absoluto tanto do lugar de suas obras quanto de quem as via. O observador precisava, segundo ele, se relacionar tanto de forma física quanto emocional com a obra de arte. No restaurante as pinturas seriam disputadas por movimentos, falas, goles, mastigações e sons inoportunos. O artista deveria ser autônomo como a própria arte (pintura): “deixa a pintura fazer o seu trabalho”, dizia ele. 

A relação de mestre (Rothko) e discípulo/assistente (Ken) - ou pai e filho -, mostram a importância do embate entre gerações, talentos e experiências de vida no reposicionamento diante de situações que comprometem a mente obcecada do artista. Rothko desiste da encomenda e devolve o dinheiro a partir de um processo de constantes questionamentos e, por fim, sob aplausos por parte de Ken. “Nada deve se interpor entre a minha pintura e o observador” pensava o artista. O preto não engoliu o vermelho, mas Rothko ficou mais pobre.

O espectador acompanha cada cena diante da técnica teatral empreendida para levá-lo a um lugar de possibilidades infinitas do olhar, da extensa gama de vermelhos vistos e ainda não vistos. O ritmo cênico pontuado por um discurso pertinente à cena contemporânea (talvez de um romantismo fora de época ou nunca existente diante de um mercado de arte selvagem) e o rigor plástico fazem do espectador um aliado do drama vivido pelo artista, pelos artistas imbuídos por um ideal. A experiência de uma geração, um momento artístico sob uma outra lógica, é explicitado na cena final na qual Rothko fala para Ken: “Quando eu tinha a sua idade, arte era uma coisa solitária: sem galerias, sem coleções, sem críticos, sem dinheiro. Nós não tínhamos mentores. Nós não tínhamos pais. Nós estávamos sozinhos. Mas era um grande tempo, porque nós não tínhamos nada a perder e uma visão a ganhar”.

A metamorfose do olhar diante do vermelho percorre mais do que as quatro estações de Vivaldi. Um olhar atento balbucia, mas não tarda a percorrer os caminhos do infinito diante dos campos de cor. O coração sente o que um olhar entregue conseguiu conquistar a partir de embates estéticos e éticos de um artista em processo de insurreição.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Rubem Braga: o fazendeiro de crônicas e passarinhos





Uma cobertura no bairro de Ipanema, na Rua Barão da Torre, 42, onde o silêncio era um espírito encantador de palavras que se movimentavam por entre folhas, flores, frutas e pássaros. Nesse cenário paradisíaco, uma reprodução da bucólica Cachoeiro de Itapemirim, concebida pelo paisagista Burle Marx e pelo arquiteto Sergio Bernardes, o jornalista e cronista Rubem Braga reverenciava a natureza e as palavras em tom confessional. Um homem recatado, misterioso, mas que o amigo e, também, cronista, o erudito Paulo Mendes Campos comentou: “Descobri o que você é. Você é um fazendeiro do ar”.

Rubem Braga deve estar querendo romper com sua solidão diante da exposição “Rubem Braga: o fazendeiro do ar”, sob a curadoria do escritor, jornalista e cronista Joaquim Ferreira dos Santos, que esteve em cartaz no Galpão das Artes Espaço Tom Jobim, em pleno Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, em 2014. Uma exposição comemorativa do centenário de seu nascimento: uma homenagem a um jornalista brasileiro (Braga não se considerava um escritor) que produziu cerca de 15 mil crônicas nos seus 62 anos de intensa criação e fascínio pela vida, pela natureza. Uma declaração de amor à arte da crônica: às “pequenas pilhas de palavras” assim denominadas pelo jornalista capixaba. Tom Jobim e Rubem Braga provavelmente estão costurando parcerias: sinfonias que nos farão vivenciar palavras e sons embalados pelo afago do ar. As palavras do jornalista irão nos abalar até as entranhas. Ai de todos nós! Ai de ti, Jobim! Ai de ti, Copacabana!

A exposição conduz o visitante a um percurso demarcado pelos seguintes módulos: “Retratos” – registros fotográficos de várias épocas da vida de Rubem Braga; “Capital secreta do mundo” – a memória da infância em Cachoeiro de Itapemirim; “Redações” – onde ele atuou como redator, repórter político e de artes plásticas em vários jornais; “Guerra” - como correspondente nos campos da Itália; “Cobertura” - a casa mitológica na qual a natureza reproduz o paraíso de sua terra natal; e “Passarinhos” - a vivência com as grandes paixões da vida do cronista. Uma memória que é revisitada pelo embate entre o real e o imaginário expresso em suas crônicas que, segundo José Castello: “Um cronista, por fim, é isso mesmo: lida com realidades mínimas, sentimentos imperceptíveis, arranca suas histórias de um quase nada”. Enfim, a terra materializa em comunhão com o ar o suspiro da criação.

A concepção cenográfica da exposição foi idealizada pelo arquiteto e designer de exposições e museus, Felipe Tassara, que procura apresentar o sujeito e jornalista Rubem Braga materializados através de uma memória visual e afetiva pontuadas por textos, documentos, fotografias, desenhos, pinturas, objetos, publicações e depoimentos em vídeos que aparecem ao longo dos diversos módulos.

Em um primeiro momento, o visitante se depara com um jogo de retratos 3x4 de Rubem Braga que apresenta as nuances das diversas fisionomias que o cronista expressou ao longo tempo. Um formato em tom noir que lembra as famosas séries de retratos de Andy Warhol: a celebração de um cronista brasileiro por bem mais de 15 minutos. Um exercício do olhar para quem vai adentrar um mundo ainda não conhecido: uma possibilidade de se percorrer o real rumo ao imaginário. Um universo de crônicas a ser desvelado a partir da produção inicial de José de Alencar, Machado de Assis e João do Rio que marcou o gênero. Afinal, como era a vida do cronista que tinha como matéria-prima as histórias contadas e vividas por pessoas comuns?

“Capital secreta do mundo” é desenhada a partir de 10 caixas suspensas (cubos em alturas diferentes) contendo textos e fotos. As caixas aparecem como depositárias da memória de infância de Braga nas quais o visitante é levado a ter uma proximidade física e temporal com um passado formador de uma expressão de vida. O revestimento em espelho no interior das caixas faz reverberar conteúdos que repercutem na percepção de quem busca a origem do homem e do artista: de um lugar (de uma aldeia) de geração de sensibilidades para o mundo. Joaquim Ferreira dos Santos comenta: “Ele partiu do princípio dos mestres, a de que é falando de sua aldeia que um escritor pode ser internacional”. A crônica de Braga se tornou um clássico da cena do mundo global.

A longa trajetória do cronista nas redações dos jornais desde o Correio do Sul até o Estado de S. Paulo aparece demarcada em uma ambientação com reproduções de diversos jornais nas paredes e no chão. O espaço é pontuado por 10 mesas de trabalho que apresentam os temas: Espírito Santo, Revista Manchete, Diplomata, O andarilho, Homem de televisão, Editor, Repórter, Escritor, Arte e O homem Rubem Braga. Temas que refletem a experiência profissional e de vida de um artífice da arte da crônica. Em cada mesa temos um iPad (que substitui a folha de papel) acoplado à lendária máquina de escrever (a Hermes Baby de Braga) que ao ser utilizada reproduz textos do cronista. Essa proposta cenográfica simboliza uma atualização das antigas redações aos novos meios digitais. Mas fica uma pergunta: teria a arte da crônica de hoje se atualizado em sua forma e conteúdo diante das prerrogativas digitais?






A prática de trabalho do cronista, além do uso manual da máquina de escrever, era marcada pela presença da secretária Aracy Seljan (ex-cunhada), a “governanta literária” Momy, que o acompanhou durante 48 anos, exercendo a função de copista e revisora de seus textos. Uma função em extinção nos dias atuais: a “governanta digital” hoje abraça a vida e o trabalho de nossos escritores, das pessoas comuns que poderão sugerir temas para a confecção de crônicas atemporais.

Aviões de papel em origami no teto sobrevoam a sala do módulo “Guerra” que recria a atmosfera da atuação de Braga como correspondente de guerra, no ano de 1944, pelo Diário Carioca, na batalha de Monte Castelo, na Itália. Com o mesmo tratamento nas paredes e no chão do módulo das “Redações” o espaço tem uma grande mesa que abriga 10 telefones antigos, em estilo dos anos 40, que ao serem tirados do gancho pelo visitante apresentam músicas, jingles, trechos de programas de rádio e noticiários do período da 2ª Guerra Mundial. Projeções na parede na altura de uma das cabeceiras da mesa ilustram o período vivido pelo jornalista entre os combatentes de guerra que resultou na publicação do livro de crônicas “Com a FEB na Itália”. 

Sob os aviões de papel passamos para “Passarinhos”: os “anjos da natureza” de Rubem Braga. Um ornitólogo com estilo que soube escrever sobre o sabiá, bem-te-vi, canário, corrupião, tuim, melro, curió, coleiro, papa-capim, bicudo e galo de campina. Uma revoada de pássaros (também em origami) cobre o espaço com um chão coberto de folhas secas. Sob uma sonoplastia de cantos de pássaros, o visitante é levado a interagir com eles a partir da projeção de suas imagens em uma tela, captada por uma câmera, que faz com que os pássaros pousem e brinquem nas mãos dos visitantes. Um momento de interação lúdica e tecnológica em tempos de busca de encantamento com a natureza. O formato digital recria a atmosfera vivida pelo cronista em seu dia-a-dia de inspiração e exaltação da vida. 

Um cronista que confessa o seu amor pelos pássaros em seu primeiro livro, “O Conde e o passarinho”, publicado no ano de 1936 pela Editora José Olympio: “Devo confessar preliminarmente que, entre um Conde e um passarinho, prefiro um passarinho. Torço pelo passarinho. Não é por nada. Nem sei mesmo explicar essa preferência. Afinal de contas, um passarinho canta e voa. O Conde não sabe gorjear nem voar ... O passarinho não é industrial, não é Conde, não tem fábricas. Tem um ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho.” Ana Maria Machado diria que Braga vivia em estado de “ternura recôndita” permanente.




          Por fim, temos a cobertura de Rubem Braga ambientada por uma fotografia panorâmica dos arredores de Ipanema nas paredes do espaço; pinturas de Dorival Caymmi e Clóvis Graciano e desenhos de Carlos Scliar, Cândido Portinari e Carybé retratam o cronista; fotografias de Paulo Garcez registram os encontros com os amigos; réplicas de móveis da cobertura e duas grandes mesas de centro que apresentam vídeos com depoimentos memoráveis de Ziraldo, Zuenir Ventura, Ana Maria Machado, Danuza Leão, Fernanda Montenegro e José Hugo Celidônio (com a ausência de sua paixão: a bela Maricota, a atriz Tônia Carrero) e um Google earth que faz uma associação alternada entre a localização da cobertura e a da casa de nascimento do cronista. Todos esses elementos cenográficos sugerem o clima de acolhimento que Braga tinha com a natureza e sua criação. Vinicius de Moraes dizia: “Ele se exprime para dentro ... Parece estar sempre virado pelo avesso.” Apesar do convívio com os amigos, Braga tinha uma vivência profunda consigo mesmo, em um ambiente natural glorioso, pontuado pela produção de crônicas de um lirismo poético coloquial tratando de cenas de nosso cotidiano. Vivia uma vida intensa sob a égide de “Uma solidão muito cheia”, declarava ele próprio.


        Uma cobertura silenciosa como deveria ser a cidade que podemos reconhecer na crônica “As músicas de Deus”: “Em toda grande cidade devia acontecer assim: de repente um apagamento de todas as luzes para toda gente recordar a noite, o escuro, as estrelas e, mesmo, um pouco, Deus”. O silêncio da crônica de Braga, um “budista que meditava em voz alta”, parafraseando Manuel Bandeira, nos faz lembrar da necessidade da escuta na emissão das palavras e dos gestos em nossos cotidianos reveladores de vida. Só assim poderemos nos tornar passarinhos ...